Conferência com Mário Eduardo Costa Pereira

"Angústia" (Seminário 10; Importância clínica para psicanálise; Modernidade e suas maneiras de evitação da angústia; Excessos da indústria farmacêutica)

Mário Eduardo Costa Pereira é psicanalista e psiquiatra, prof. do Depto. de Psicologia Médica e Psiquiatria na Unicamp, doutor pela Universidade de Paris 7 (orientação Pierre Fédida), membro da Associação Universitária de Pesquisas em Psicopatologia Fundamental, diretor do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da FCM-Unicamp, editor-associado da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, coordenador do Estágio de Psicoterapia Psicanalítica na Unicamp, prof. do Instituto Sedes Sapientiae e da Casa do Saber, autor dos livros "Pânico e desamparo" e "Psicopatologia dos ataques de pânico", Ed. Escuta.


Conexão Lacaniana: Em nome do dr. Márcio Peter e todos da Conexão, estamos recebendo hoje o dr. Mário Eduardo, professor da Unicamp, na psiquiatria e como psicanalista ele tem dois livros publicados, sobre o pânico o qual ele aborda a partir da angústia retomando Freud e Lacan.

Hoje o professor vai nos falar sobre o Seminário X da Angústia, da abordagem da psicanálise, contrapondo-se a outras que hoje tem uma postura bem diferente da nossa, como por exemplo, ele vai falar dos excessos da indústria farmacêutica. Professor Mário Eduardo, estamos muito contentes em recebê-lo e passo agora a palavra para o senhor.

Mário Eduardo - Muito bem, boa tarde a todos. Em primeiro lugar, eu gostaria muito de agradecer o convite do Márcio Peter e da Conexão Lacaniana. É um grande prazer e uma grande honra poder conversar com vocês nesta tarde de domingo, ainda mais sobre um tema sobre o qual venho trabalhando há algum tempo e eu gostaria então de poder partilhar com vocês algumas idéias que eu venho desenvolvendo sobre esta questão e a idéia então seria que hoje a gente possa trabalhar algo da clínica da angústia e ver qual é a atualidade da proposta de Lacan no contexto desta clínica contemporânea, tal como a gente vivencia na nossa prática cotidiana.  

Eu gostaria de iniciar, dizendo o seguinte: vou trazer uma breve ilustração clínica. Hoje, praticamente qualquer psicanalista, qualquer clínico que trabalha com problemas relacionados com a angústia, sabe que o sujeito já chega ao consultório com um discurso extremamente marcado pelo saber médico-psiquiátrico, que é a nossa forma contemporânea de subjetivar a angústia. Dificilmente a gente tem alguém que chega ao consultório que não tenha pesquisado ou na internet ou nas revistas leigas ou entre os amigos, o que o discurso médico-psiquiátrico fala a respeito da angústia, as suas formas diagnósticas, suas formas clínicas, as possibilidades terapêuticas. Muitas vezes eles já chegam auto-diagnosticados. Ou seja, no nosso contexto atual a angústia, ela é inscrita em cada sujeito, fortemente marcada por essa forma de organização, de modo que isso já se coloca como um anteparo; se coloca como um primeiro plano na nossa prática clínica com esses sujeitos.

Ora, o que quer dizer essa formatação médico-psiquiátrica da angústia? E pelos diversos diagnósticos que os próprios pacientes se atribuem? Transtornos de ansiedade generalizada, transtornos de pânico, fobias, fobia social, enfim, esses mais diversos diagnósticos que estão disponíveis aí para os sujeitos organizarem o seu sofrimento.

O primeiro aspecto é que como a psiquiatria organiza atualmente as suas entidades por essa noção de transtornos, ou seja, através de uma noção operacional, é importante que se dê conta do que essa idéia de transtorno representa. O primeiro aspecto é que a idéia de transtorno na psiquiatria não se refere necessariamente à idéia de uma doença, mas uma organização pragmática de certos fatos clínicos, organizados de tal forma que eles possam ser identificados a partir de um ponto de vista objetivo, um exame clínico que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo poderia reproduzir e chegar ao mesmo diagnóstico, ou seja, se busca apenas que este recorte permita uma confiabilidade daquilo que foi dito, uma criação de um diagnóstico que seja confiável do ponto de vista do seu referente.

Agora, o mais importante é: qual é ou quais são os fundamentos ou os pressupostos que organizam estes recortes?  Então, a idéia de transtorno (de disorder, que vem do inglês) focaliza a ênfase nessa noção de mal-estar, de disfunção, de perda de capacidade de produção, ou seja, está embutido na própria organização deste fenômeno, os valores que são tão caros para nossa sociedade contemporânea, ou seja, uma sociedade capitalista, globalizada, individualista, que tem no indivíduo, que tem no eu, a sua referência principal, ou seja, ela focaliza de modo a encontrar no eu, formas de sofrimento ou formas de desadaptação que são consideradas um malefício pelo conjunto, globalmente das pessoas que organizam essas categorias, e que são apresentadas ao público como organizações técnicas. Dito em outras palavras, diagnosticar é sempre uma maneira de embutir um recorte do mundo, é sempre uma forma de estabelecer como critério técnico aquilo que de fato é um critério ético, estético e valorativo. Ou seja, quando uma pessoa chega ao nosso consultório já se atribuindo um diagnóstico feito nestas bases, nós encontramos então vários elementos que vão incidir na clínica psicanalítica.

O primeiro elemento é esta exterioridade do sujeito em relação ao seu sofrimento. Ele se apresenta como sofrendo de um transtorno. Este transtorno é exterior à sua subjetividade, o que ele busca em primeiro lugar, em geral, é alívio do sofrimento, é restabelecimento das funções, restabelecimento da capacidade produtiva, readaptação. Da forma mais rápida possível, porque afinal de contas o eu está em questão. Numa sociedade individualista em que o eu é o principal valor, todos os fenômenos que são vividos como sofrimento que atinge o eu ou como abalos ao eu, são vistos como malignos, são vistos como algo a ser tratado. Então em geral é esta demanda que não apenas o fenômeno de angústia, mas a própria presença da medicina e da psiquiatria na organização da mente das pessoas faz com que elas se organizem a partir destas perspectivas, ou seja, nós encontramos então nesta clínica um campo em que o sofrimento não faz com que o indivíduo se sinta interpelado como sujeito, por seu sintoma.

O sintoma do sujeito não é vivido pra ele como algo que o coloca em questão, é algo que coloca em questão o saber médico, é algo que coloca em questão o saber técnico, mas não a si próprio como sujeito, ou seja, o lugar que é atribuído ao seu interlocutor na clínica, seja este interlocutor psicanalista (mais psiquiatra, psicólogo ou outro) é em primeiro lugar aquele que vai falar de um ponto de vista do saber técnico o diagnóstico exato, o tratamento exato e vai aplicar este tratamento sobre um paciente. Ou seja, esta posição tende a um aprofundamento da alienação do sujeito em relação ao seu próprio sofrimento e esta alienação, ela é ratificada pelo prestígio contemporâneo do discurso da ciência.

A ciência é chamada na figura do médico, do psicólogo enfim a subscrever... Essa figura é chamada a subscrever a autoridade da ciência dizendo que o sujeito em última instância não tem nada a ver com isso.

Ora, é neste contexto também que vão se colocar estas terapias contemporâneas que são conclamadas de uma maneira muito urgente na nossa clínica atual. Terapias que agem diretamente sobre o sintoma, da forma mais rápida possível, da forma mais garantida pela verificação experimental, cujo responsável em última instância é o técnico, médico, psiquiatra, psicólogo e que a função fundamental do paciente é acompanhar de maneira rigorosa as instruções do tratamento.

Este sujeito que chega a nós nestas condições, a gente já vê então imediatamente a dificuldade para qualquer trabalho psicanalítico, a partir desta circunstância. Então, o que eu gostaria de tratar com vocês é como então isso se coloca... Quais são as aberturas possíveis ao psicanalista numa clínica que se apresenta com este contorno?

Eu gostaria de talvez iniciar, dizendo para vocês ou recordando para vocês que a angústia tal como ela é apresentada hoje em nossa clínica, ela tem uma inscrição circunstancial. Ela depende de certos fatores históricos, culturais, econômicos. Mas do ponto de vista estrito, esta noção de angústia, a própria noção de angústia tem uma história. A própria concepção que nós podemos um dia vir a criar do que seja angústia, também ela se inscreve num processo histórico.

Em um de meus livros, eu tento retratar uma espécie de uma história da construção para nós, da nossa concepção da angústia. Se nós tomarmos, por exemplo, como faz o famoso helenista Jean Pierre Werner, se nós formos estudar a noção de angústia tal como nós conhecemos hoje, ela não está presente entre os gregos. Ele nos recorda que um homem grego, ele se organizava não como um eu provido de interioridade; ele se manifestava, ele existia como um cidadão Napóles que valia pelos seus atos.

Dito em outras palavras, a noção de angústia, tal como nós conhecemos hoje, ela só é possível a partir do momento em que o homem começa a ver a si mesmo, primeiro, como um indivíduo dotado de uma interioridade, de uma profundidade e que esta interioridade pode entrar em conflito consigo mesmo. Sem esta primeira noção, a nossa idéia contemporânea de angústia não se coloca.

Então este homem grego que valia pelo valor de sua ação, pela sua honra, pela nobreza dos seus atos, ele não se colocava como um ser com conflitos interiores, não será um Hamlet que séculos depois se apresenta como dividido e num sofrimento que tem a ver com a partição interna do seu ser.

Essa história então, da angústia, ela se constitui progressivamente desse homem grego que é fundamentalmente organizado pelo seu ato, passando - nós não iremos traçar essa história, mas simplesmente para lembrar alguns elementos - se nós pegarmos o homem medieval, cristão medieval, a nossa concepção atual de angústia, ela pressupõe uma questão ligada a nossa finitude, ela pressupõe um risco para nossa existência.

Um homem medieval a questão do risco pra sua própria existência não era tão fundamental como é hoje para nós. Um homem medieval, um cristão medieval se colocaria facilmente a seguinte questão: O que vale mais perder a vida ou perder a alma?

Entre os dois ele não hesitaria em dizer: mais vale perder a vida do que perder a alma. Do que me adianta ficar vivo se eu perco a alma? Ou seja, neste tipo de noção nós encontramos já uma abertura a possibilidades, mas que a própria manutenção da vida ela não é em si mesma tomada como uma espécie do valor primário absoluto.

Nosso homem contemporâneo, ele se coloca como uma espécie de auto-evidência ética das ações médicas e técnicas. Se for para salvar a vida eu estou legitimado a qualquer esforço. A gente está longe daqueles momentos utópicos, de que de bom grado daríamos a vida em nome de um ideal, de bom grado nós daríamos a vida em nome de, por exemplo, de uma questão social. Hoje como o eu se coloca como o grande organizador da nossa existência, colocar em risco o eu, pela via, por exemplo, da doença ou da morte, é colocar em risco o essencial do universo.

Ora, nesta história da angústia que se constitui como um progressivo encontro do sujeito com dimensões que tem a ver com o que a própria palavra diz. Eu lembraria que angústia é um termo que se coloca nas línguas latinas e na psicanálise a partir do angst Freudiano. O angst freudiano tem essa dupla conotação. Em primeiro lugar significa medo simplesmente, mas ele vem de origens muito anteriores tanto latinas, mas de outras origens também, nas quais nós temos dois termos que vão recortar o campo do angustiante.

Por um lado o termo angor, de origem latina, e por outro lado outro termo latino que é anxio. No alemão de Freud esta distinção, como também no inglês, ela praticamente não se coloca, ela tenta fundir angor e anxio. Angor e anxio têm conotações diferentes. Angor, ela tem a ver com esta idéia de um estreitamento, de um aperto, de uma vivência, de uma restrição do âmbito existencial. “Algo me aperta o peito’’. Uma angina pectoris tem a ver com esse aperto do peito.

A anxio tem uma outra idéia, tem uma outra dimensão. A anxio está mais próxima daquilo que em português seria o anseio, a ansiedade. Não é apenas que algo me coloca em questão existencialmente, constringindo o âmbito da minha existência, mas tem algo que me excita em função de um grande anseio que me perturba no meu ser. Esta distinção, ela é mais clara nas línguas latinas, mas menos clara na língua do Freud.

Quando Kierkegaard entra nesse debate com seu famoso texto sobre o conceito da angústia, ele vai aproximar a idéia de angústia justamente da nossa possibilidade de liberdade, ou seja, cabe a nós sem instância superior, deliberarmos sobre os destinos a dar às nossas existências. Sendo que estes destinos não têm uma garantia prévia de que a nossa escolha vai se mostrar a melhor.

Ou seja, ele vai aproximar por um lado, a angústia da liberdade, mas por outro lado Kierkegaard vai aproximar também a angústia do nada, da angústia justamente da falta de garantias no que concerne tanto a nossa tomada da posição, ou seja, a responsabilidade daquilo que fazemos, quanto do existir em si mesmo. Algo que será retomado profundamente por Heidegger quando ele vai dizer que, se do ponto de vista lógico, do ponto de vista conceitual, o problema do nada é um certo ponto de vista, um absurdo,  o nada seria do ponto de vista lógico apenas uma coisa negada, diz Heidegger  que através da angústia temos uma espécie de acesso de contato existencial direto com o substrato de nada, sobre qual se dá a existência.

Desse ponto de vista, há uma intuição de que o existir repousa sobre nada, não é sobre algo, mas sobre nada e a angústia nos remete a isso.

Se eu estou recordando estes aspectos mais ou menos fundamentais relacionados à angústia, vai ser para poder melhor situar a proposta de Freud, e a leitura que é feita por Lacan desta proposta freudiana.

Ora, Freud vai ter na sua teoria dois pólos principais como se sabe. Num primeiro momento, para Freud, a angústia vai ser esta expressão de libido insatisfeita, um represamento, uma incapacidade, uma inviabilidade de que o sujeito possa ter acesso a uma descarga libidinal, e essa impossibilidade desnatura a libido em angústia. No outro pólo da sua teoria, nós vamos ter a angústia semantizada, a angústia vai ser um sinal, vai ser um sinal que é colocado em ação pelo eu, para frear o fluxo da tendência pulsional. Em que sentido: Porque o eu identifica que a continuidade deste fluxo lançará o sujeito numa condição que Freud chama de desamparo, que é hilflosigkeit, é uma condição daquele que é lançado sem possibilidade de apoio, de ajuda, de socorro de um outro.

Ora, quando Freud faz esta radicalização, esta mudança de posição na sua teoria, ele está tentando responder a um livro que fez uma grande repercussão no momento da sua publicação em 24, que é o Trauma de Nascimento de Otto Rank. Otto Rank defendia nesse livro uma tese que ele já havia começado a desenvolver desde as primeiras reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, da Sociedade Psicanalítica das Quartas- feiras, na casa de Freud, no começo dos anos 10. Ou seja, ele revê uma matriz fundamental a qual ele remetia toda a angústia.

Toda angústia em última instância seria uma espécie de recordação, de memória existencial do trauma do nascimento. Entrar num mundo, a experiência de nascer enquanto tal seria tão perturbadora, que essa inscrição ficaria profundamente marcada no sujeito e que em última instância toda a vivência angustiante do sujeito seria remetida a essa perturbação fundamental. Freud, então escreve em 26, “Inibição, sintoma e angústia”, na tentativa de responder à profunda perturbação que ele próprio experimentou lendo o livro de Rank. É uma tentativa de reorganizar a sua teoria, ressituando o papel específico tanto do trauma do nascimento, mas em especial da questão do Édipo e da castração.

Para Freud, de fato o nascimento é o protótipo de toda angústia, mas não como memória de um evento, apenas como um trauma fundamental em que o sujeito se vê lançado, invadido pela hilflosigkeit, pelo desamparo total. Ele diz, essa vivência o indivíduo experimentou, está inscrito na base do seu inconsciente. Contudo, a questão é: quais são as constelações que o eu identifica como sendo perigosas, ou seja, como constituindo o risco de que o sujeito seja lançado ao mesmo estado de um sofrimento sem qualquer socorro, de uma invasão pulsional vivida como aniquiladora, cujo protótipo, a forbild diz Freud, é o trauma do nascimento? Freud dirá que a situação de perigo, ela é tão singular quanto a nossa impressão digital. O que é o perigoso para cada um de nós, é extremamente singular.

Mas ele vai se organizar segundo uma matriz fundamental. Essa matriz fundamental será Édipo e castração. É nesse sentido que a angústia funciona como sinal. Ela diz assim: segundo a gramática de Édipo, segundo a gramática do complexo de castração, se uma determinada constelação (vamos chamar aqui de significante) indicar para o sujeito que ele tem o risco de ser lançado numa situação tal, de que em última instância, ele não terá mais como se amparar a um afluxo insuportável de excitação, ou seja, ficará em desamparo, isso é vivido como o maior perigo, e é disso que o eu se defenderá com o sinal de angústia, ou seja, a angústia tem nessa teoria de Freud, sede no eu.

Ora, Lacan vai propor uma outra ênfase na tese freudiana. Entre esses dois pólos, Lacan vai retomar um texto, que para nós hoje é muito cotidiano, mas se tornou cotidiano pela influência de Lacan que é o texto de 1919, O sinistro, das unheimlich. Esse texto vai ser lido e colocado por Lacan num lugar central, para a compreensão da teoria freudiana da angústia.

O seminário da angústia de Lacan, ele se dá num contexto da história do movimento psicanalítico francês muito singular. Nesse ano de 62, nós já estamos sob a influência de um outro texto francês que ocupou muito os debates na França durante vários anos, que foi a famosa tese de Juliette Favez-Boutonnier sobre a angústia. E ela faz um esforço de incorporar na leitura da psicopatologia da angústia, as noções existenciais de Kierkegaard e de Heidegger.

Numa perspectiva muito próxima, Edouard Pichon havia feito também uma série de estudos relacionando a angústia com a questão do nada e da negatividade. Ora, Pichon não é um personagem qualquer. Pichon foi um próximo de Lacan, ele junto com Demourette fizeram lá a famosa gramática da língua francesa a partir da qual Lacan vai construir a noção de foraclusão. Mas também Pichon, participante do grupo “The evolución psychiatric” com Janvier e com Minkowski, no qual Lacan era uma espécie de jovem promissor, não era da mesma geração nem de Pichon nem de Minkowski, mas que participa deste grupo de uma maneira muito ativa, ele toma contato direto com essas teses que tentam aproximar tanto da leitura psicopatológica psicanalítica, como psicanalítica, as contribuições que vêm dessa leitura mais existencial.

Ora, como Lacan entrará então nesse debate recolocando então a teoria freudiana a partir da noção de unheimlich, de inquietante estranheza? Ora, em primeiro lugar colocar a ênfase da angústia a partir do unheimlich, é tomar uma postura extremamente freudiana.

Já na abertura do seu artigo sobre a inquietante estranheza, o próprio Freud diz que ele trás uma contribuição ao estudo da estética, tentando esclarecer porque certos fenômenos que são vividos na literatura, provocam no leitor essa vivência de inquietante estranheza? E ele diz explicitamente que o que ele tenta então é focalizar, no interior do campo do angustiante, o termo que ele utiliza é das angstimlich, do angustiante, uma forma particular do angustiante a título de das unheimlich da inquietante estranheza, ou seja, para Freud a inquietante estranheza faz parte do campo do angustiante sem que o campo do angustiante se reduza a inquietante estranheza.

Ao lado da inquietante estranheza temos outros fenômenos estudados por Freud. Temos, por exemplo, o horror à forma do angustiante, das grauen, que é a forma de angústia com a confrontação da castração do outro; temos schreck, o terror, a forma de angústia, própria à situação traumática; temos a angústia final e daí por diante, temos uma série de diferentes fenômenos angustiantes que são estudados por Freud, e que fazem para ele então a composição deste campo de o angustiante.

Ora, Lacan vai dar à inquietante estranheza um papel destacado. Um papel de leitor do campo do angustiante. Vai situar então a partir dessa idéia de unheimlich de fato a angústia no campo do eu. Contudo ele vai trazer um ponto muito importante: já tendo desenvolvido grande parte das suas teses dos fenômenos especulares na constituição imaginária do eu, Lacan chama a atenção para o seguinte fato: que nem todos os fenômenos do campo do sujeito são visíveis na imagem especular. Eles não são traduzíveis subjetivamente como imagem que eu possa fazer de mim mesmo.

 Dito em outras palavras, têm elementos da constituição do sujeito que são fundamentais, mas que não são visíveis na imagem que o sujeito pode constituir como um imaginário do eu, ou como Lacan dirá, vai ter uma falha, vai ter um buraco nesse processo de especularização.

A tese central de Lacan tenderá então a dizer que é fundamental para a organização do sujeito enquanto desejante, ou seja, como respondendo à sua inscrição em uma malha de significantes que vem do campo do outro e que essa própria malha, ela é, em si mesma, ora pequeno a, quer neste contexto dizer âncora da pulsão, quer neste contexto dizer fragmento, resto da coisa, que com a perda desta coisa, ancora a pulsão na promessa de uma completude que jamais existiu, mas que é vivida como perdida; mobiliza nesse sentido o sujeito, transformando-se como causa do seu desejo.

Ora, na topologia proposta por Lacan, este objeto a  tanto ornará algo do campo da falta.

Dessa maneira, a tese fundamental da angústia para Lacan tem a ver com, em primeiro lugar: a angústia não vai, para Lacan, se resumir a um fenômeno apenas significante, ou apenas imaginário. Tem algo da angústia como descortinamento deste objeto que ancora a pulsão. Tem a ver com algo da ordem do real. Tem a ver com algo que só poderá ser teorizado de uma maneira mais sistemática de fato na teoria dos nós borromeanos que virá bem no final da obra de Lacan.

Mas neste momento, já no seminário da angústia, já está colocado esta dimensão de que a angústia neste sentido é o que não mente. Não mente, porque descortina ao próprio sujeito pela interpelação que é feita em si próprio, pela emergência dessa experiência angustiante, da exposição ao objeto causa do desejo.

Eu gostaria de trazer aqui dois pontos que me parecem muito importantes para nós pensarmos a nossa clínica contemporânea, a partir desta breve construção muito reduzida do seminário de Lacan sobre a angústia, mas que coloca alguns pontos que me parecem fundamentais.

Em primeiro lugar, veja, é uma estrutura de objeto a sobre o vazio. Num certo sentido, esta angústia não se resume a elementos da verdade do sujeito, mas propriamente da emergência de um real que interpela o sujeito. A presença excessiva desse real justamente faz com que se coloque o risco de falta vir a faltar, ou seja, de que um desejo não consiga mais se colocar.

Mas eu gostaria de ver com vocês um passo a mais além disso. Essa estrutura de uma botija que organiza um vazio sob a qual algo que promete uma completude, ao mesmo tempo, lança o desejo, mas provoca a angústia, ela em si mesmo, como diria Lacan mais tarde, algo da ordem do semblante, algo da ordem da fachada. Descortinado o objeto a enquanto tal, enquanto fachada de promessa de completude, o que se descortina novamente é nada.

Aí vamos ter uma outra dimensão do fenômeno angustiante, e que eu diria que tem a ver com fenômenos, que tem a ver com o final da análise.

De uma outra ordem da angústia que não é simplesmente aquela que diz respeito a essa exposição crua ao objeto a. A esse risco lancinante, opressivo, angustiante, angor, de que não haja mais espaço. Daí os fenômenos agorafóbicos, não há mais espaço, está tudo ocluído.

Mas que para além disso, quando este próprio objeto pode desabar, e por detrás do objeto se descortina esta estrutura que é meramente contingente de que um arcabouço significante cria um vazio que em última instância é a articulação de nada, se coloca para o sujeito no momento do desabamento desse caráter de fachada, uma nova tarefa. É como é possível sobreviver e se organizar como desejante num momento deste descortinar do nada atrás do brilho cintilante prometido pelo objeto.

Eu lembraria, por exemplo, não sei se vocês assistiram esse filme que ganhou o Oscar este ano: “Onde os fracos não têm vez”, e duas cenas muito marcantes. Quando o assassino psicopata, no segundo encontro da moedinha, quando ele vai lá encontrar com a mulher do homem a quem ele havia dito que mataria a mulher. Esse homem já morto. Ele encontra essa mulher, ele diz que vai matar essa mulher. Ela diz que “mas porque que vai fazer isso?” Ele diz: “isso todos me perguntam”, então ele diz “eu vou te dar uma chance, eu vou fazer o cara ou coroa”, como ele já havia feito com outro personagem no filme. Decidir no cara ou coroa se esse personagem continuaria vivo. Essa mulher diz para ele: “não, não pode ser no cara ou coroa”. Ela diz assim: “é você que tem que decidir”, e ele responde para ela: “você acha que eu sou menos contingente do que o trajeto dessa moeda que faz o cara ou coroa?”.

Ou seja, isto é tão marcante no filme, que o filme nem se preocupa em mostrar se ele matou ou não matou a mulher. E na cena final, na cena do personagem Thommy Lee Jones que é nós, a nossa formatação psíquica, esperando que a qualquer momento Thommy Lee Jones, vai botar o bandido na cadeia, ele simplesmente tem dois sonhos e estes dois sonhos, ele simplesmente se vê nessa posição nuncille numa noite escura cujo único aconchego é buscar algum pai que possa acolhê-lo, que não vai resolver a noite escura, mas que ele quer se sentir aconchegado.

Ora, essa é uma tarefa que ao mesmo tempo ela é angustiante, a administração da noite escura, como poder sobreviver depois da queda dos objetos luminosos que pareciam garantir o sentido pulsional da existência, e administrar se fazer senhor, na medida do possível para algo em que o fantasma não é mais a garantia definitiva. Ora, essa tarefa é uma tarefa muito contraditória com os ideais da nossa sociedade individualista, capitalista, globalizada contemporânea.

Qualquer sinal no âmbito da existência que possa remeter a nossa oclusão pelo excesso de demanda de a, ou por outro lado, o descortinar do vazio escondido atrás dessa fachada, ou seja, aquilo que lançaria a nossa necessidade da criação de um novo amor, em outras bases, uma outra inscrição no mundo, é terrivelmente perturbador para essa nossa forma contemporânea de conceber o existir humano.

Nesse sentido, o sujeito é acometido dessas crises de ansiedade, de fobias, de medo, dessas rupturas dessa unidade narcisista, que se organiza hoje pela nossa promessa capitalista de que um dia você vai chegar lá, e quando chegar lá vai ter acesso aos gozos plenos. O descortinar dessa “falasse” é profundamente perturbador. Então nós nos perguntaríamos: por que mesmo que numa cultura como essa nós temos taxas, por exemplo, psiquiátricas de transtornos de pânico de 2%, 3%, 4% da população?

Ou, por que será que os tranqüilizantes benzodiazepínicos, ou seja, remédios para aplacar a angústia ou para ajudar a dormir de noite, estão entre os medicamentos mais vendidos entre todos os medicamentos de qualquer categoria no mundo. Ou então, porque que esses nossos sujeitos, que vem nos procurar no consultório, aquela enorme ruptura colocada nas suas existências pela emergência daquela angústia que eles não conseguem inscrever, porque que a demanda que ocorre não é uma demanda que os interfere como sujeitos, mas apenas uma demanda de alívio e uma demanda de que alguém ocupe o lugar de responsável pelas suas vidas. Poucas demandas são tão urgentes, tão candentes no mundo de hoje, do que alguém se colocar no papel de pastor, que guia a minha vida no momento que eu não encontro mais uma âncora de sentido para ela. Naturalmente, esse pastor pode ser religioso, pode ser científico, pode ser outro.

 Agora nós vemos também a questão ética que se coloca para aquele que é convocado a responder desse lugar, mas quem é respondendo desse lugar, justamente, só faz ocluir mais profundamente, qualquer possibilidade de contato desse sujeito com a fenda da qual brota a sua angústia. Eu diria então, para terminar essa minha breve apresentação, mas também para lançar o debate, que nós nos encontramos hoje, enquanto psicanalistas, lançados por um lado em um mundo que tolera muito pouco a possibilidade que o grande Eu possa estar em questão, e que espera dos seus clínicos uma resposta de mestres ou de técnicos absolutos, isto por um lado.

Por outro lado, a emergência da angústia nessa sua dimensão de real, ela não necessariamente ela é vivida como o sintoma do ponto de vista psicanalítico, pode ser como um sintoma psiquiátrico ou um sintoma médico, mas não propriamente como um sintoma psicanalítico.

Eu diria então que um dos desafios da clínica psicanalítica contemporânea é transformar essa queixa que mesmo no início, quando ela é dirigida a um psicanalista, ela tem este formato médico, que ela se transforme em sintoma psicanalítico, ou seja, aquilo que pode fundar uma possibilidade de instauração transferencial da situação analítica.

Um outro ponto, é o lugar do psicanalista nesse debate, no plano do laço social, no plano dos discursos que circulam. Necessariamente é isso um pouco, que tenho feito há muito tempo, estou fazendo hoje, é necessária uma denúncia desse fetiche, no qual pode se transformar o discurso científico, sem com isso rejeitar a ciência. Simplesmente dar à ciência a sua dimensão de instrumento que trabalha com dispositivos que conseguem verificar e objetivar certas dimensões recortadas da experiência humana, mas que não é capaz de ela própria, fornecer ou alcançar uma nova visão de mundo.

Ou seja, é necessário que o psicanalista faça esse debate público e que faça essa crítica. Embora essa crítica, ainda assim, ela não seja o único lugar onde ele vai atuar.

Os nossos pacientes, necessitados, angustiados aos extremos, eles continuam batendo às portas de nossos consultórios, em geral com percursos muito mais longos, com uma longa história de desilusões, às vezes com uma esperança de que finalmente vai encontrar o mestre “sabe tudo”, que vai lhe dar a resposta, que vai ocluir de uma vez por todas a emergência de algo que ele não suportava. 

O nosso desafio é de, nesse momento, da eclosão daquilo que é mais desesperador, nós conseguirmos fazer com que ao mesmo tempo... vocês lembram que no seminário da angústia, o desespero é sempre um problema clínico para Lacan. A angústia, vocês lembram, é vizinha de porta por um lado da passagem ao ato, por outro lado do acting out. Evidentemente não é o caso de simplesmente permitir que o sujeito se lance a um desespero, em um desespero que não leva a nada. Um certo grau de aplacamento da  angústia, ele é necessário para que a própria situação analítica possa se instalar; então daí, quer dizer que o tratamento psiquiátrico no meu ponto de vista não é em si mesmo algo de negativo, pode ser algo que contribua e contribua fundamentalmente para a instalação da situação analítica.

Eu diria que muito mais grave do que o aplacamento do desespero é um discurso que reassegure ao sujeito de que a resposta de que aquilo que está emergindo como angústia nele é a ciência quem tem. E é no campo da situação analítica e principalmente das entrevistas, ditas entrevistas preliminares que isso vai se jogar.

Ou seja, como poder instituir esse momento de báscula, em que a angústia de um sintoma médico possa se colocar como questão existencial, fundamental, em que o sujeito na sua fantasia e no seu desejo se encontram interpelados.

Eu acho que eu posso parar por aqui, eu queria agradecer a atenção de vocês até esse momento e vou então passar a palavra a vocês para que a gente possa conversar. Muito Obrigado.

Eu vou aguardar então as perguntas que vocês quiserem colocar. Eu vou responder aqui há uma pergunta do Angelino Bozzini (SP):

Angelino Bozzini (SP): Caro professor Mário, na sua opinião, quando um paciente vem medicado, qual seria o parâmetro para se decidir quando parar ou diminuir a medicação?


Mário Eduardo - Esse parâmetro do meu ponto de vista ele é sempre clínico. Evidentemente, a questão da medicação, a maior parte das vezes, a decisão não é uma decisão que é feita pelo psicanalista, é uma decisão que é feita pelo psiquiatra. Então é importante ter alguns psiquiatras de bom senso. Para Lacan e acho que qualquer bom clínico, se coloca a questão dessa angústia como tendo uma espécie de uma faixa ótima em análise. Se a angústia é excessiva, se ela é transbordante, ela vai apenas derivar para o acting out ou para a passagem ao ato, para a passagem ao ato em geral, com conseqüências totalmente imponderáveis e às vezes irreversíveis. Então do desespero me parece que nada pode resultar de muito útil na situação analítica. Contudo uma angústia aplacada demais, facilmente fará com que aquilo de real que estava colocado no angustiante se perca como interpelação do sujeito. Esse tipo de angústia, essa manutenção da palavra do sujeito sempre num certo fio da navalha é uma tarefa a ser sustentada na situação analítica. Ou seja, é uma interpelação que dependerá da posição ocupada pelo analista na situação analítica. É importante que o dito do paciente em transferência possa ser mantido sempre nesse fio de corte em que a posição não é a de aplacar o fenômeno que vem à tona, mas de interpelá-lo na sua radicalidade, ou seja, naquilo que apontará esse descortinamento do objeto “a” e as relações do sujeito com a falta e com a castração.

Pergunta (SP): Obrigada! Gostaria que falasse um pouco mais da angústia de final de análise.

Mário Eduardo - A Sônia Perazzolo pede que eu fale um pouco sobre a questão da angústia no final da análise. Ah, eu diria o seguinte: tem certos elementos do final da análise ou a passagem até o final da análise que são muito angustiantes em si mesmos. Vamos pegar um momento desses. Por exemplo, para alguns sujeitos essa descoberta, não intelectual, mas existencial, de que não há outro do Outro. Essa cena do filme que falei em que o sujeito se vê confrontado ele próprio à noite escura e que não há garantia transcendental, nem fundamental para o seu “estar no mundo”. Esse momento pode ser um momento extremamente angustiante, embora seja também um momento em que se coloca a questão da liberdade do sujeito. Esse foi um dos problemas que Lacan se encontra na primeira fase da sua obra. Uma posição estruturalista muito extrema, uma primazia radical da ordem simbólica, significaria que nós somos apenas executores de uma espécie de um programa simbólico que nos foi colocado e que a nossa margem de existirmos como sujeito é simplesmente executarmos esse programa. Ou seja, quando a partir do Seminário VI – O desejo e as suas interpretações - Lacan dá esse papel destacado à questão de que não há outro do Outro, não há garantia definitiva que garanta o outro, ou seja, em não havendo essa garantia, não há resposta definitiva sobre mim mesmo, que eu possa esperar que venha do campo do outro, deixa a mim a tarefa de me inscrever como sujeito no mundo, com todos seus riscos, e com toda a liberdade que isso implica, ou seja, com uma dimensão de angústia da liberdade, mas também de uma questão ética. “Eu respondo pelo meu estar no mundo”. Uma posição ainda mais radical, ligada ao final da análise é quando o próprio objeto a  na sua inscrição na fantasia, ou seja, como Lacan dizia, a fantasia de que o sujeito tem de mais real, a janela  a partir da qual ele descortina o mundo. O pé do sujeito repousa sobre o campo da fantasia. Ora, quando esta própria fantasia perde a sua garantia nesse objeto a, que se revela apenas como fachada, e esse desvelar-se dessa fachada que vai se dar no campo da fantasia, ao mesmo tempo que se dá na transferência, radicaliza então essa necessidade do sujeito responsabilizar-se e dar um sentido para o seu estar no mundo. Ou seja, é uma dimensão inescapável para que uma análise possa chegar até o seu final.

Pergunta (SP): Quais as bases para um diálogo entre o psicanalista e o psiquiatra?

Mário Eduardo - Eu acho essa questão excelente. Eu tenho me ocupado muito com essa interface. Eu diria o seguinte: Uma boa clínica psiquiátrica pode ser um grande aliado da psicanálise e que, não considero que seja indispensável que um psiquiatra seja um psicanalista, acho que ter sido analisado é uma coisa boa coisa, mas enfim, eu diria que hoje o efeito mais funesto que pode ter a clínica psiquiátrica, não é tanto os efeitos digamos farmacológicos que se possa ter (esse daí numa certa dimensão, eles podem ser bastante perturbadores para a situação analítica), mas fundamentalmente, se o psiquiatra vai ou não manter em aberto a questão do sujeito remetendo aquilo que vem da ordem de um sofrimento à dimensão de um sintoma que faz com que o sujeito se coloque em questão.

Se o psiquiatra diz assim: “Olha, eu vou te dar esse remédio ele vai diminuir a sua angústia, mas o que será que está tirando o seu sono? O que está havendo com você?” Ele permite um aplacamento do caráter desesperador do sofrimento, mas remete a questão ao campo do sujeito. O que é completamente diferente em numa outra clínica em que o psiquiatra diz assim: “Você está tendo este grande sofrimento, mas você não tem nada a ver com isso. Isso é apenas a expressão de um funcionamento anômalo dos teus neurônios e dos teus neurotransmissores. A base vem dos teus genes, ou seja, vem de uma herança de que você não tem nada a ver com isso. Essa herança, ela se resolve num plano técnico, e do plano técnico entendo eu que enquanto representante legítimo da medicina”. Eu acho que este tipo de discurso, que tem um caráter de oclusão de qualquer coisa que poderia interpelar o sujeito a partir do sofrimento que ele está experimentando naquele momento. Eu acho que esse, digamos, é o caráter mais sombrio da psiquiatria contemporânea. É quando ela não apenas se coloca como instrumento técnico de uma clínica que mantém o sujeito como uma questão em aberto, mas ao contrário, quando ela faz o papel do pastor que delibera sobre o sentido da existência, sobre os bons amores ou os maus amores, sobre as boas e as más expectativas e sobre as questões éticas do sujeito.

Pergunta (RJ): Nos pacientes que chegam com uma angústia transbordante como você disse, o tema da sessão gira sempre em torno desta sensação. Como se pode trabalhar nas entrevistas preliminares para dar ensejo a alguma possibilidade de constituição do sintoma analítico?

Mário Eduardo - Eu acho que a Adelina pegou bem o ponto que eu dizia, não é ?! Eu trabalhei muito e trabalho com pacientes com transtorno de pânico e a experiência é a minha e eu acho que é a de todos que trabalham com esses pacientes, é a seguinte: Num primeiro momento se eles estão ou muito acometidos de crises de pânico ou muito apavorados com a possibilidade de seu retorno, a participação do trabalho psiquiátrico muitas vezes, ela é fundamental, porque se não tem um mínimo aplacamento do desespero desses sintomas, acontece isso que a Adelina está dizendo: o sujeito não tem outro assunto. É simplesmente: “em que momento isso vai voltar? Eu vou morrer! O que é que eu posso fazer?”. Eu diria que é muito difícil retirar o sujeito desse discurso, eu diria para vocês o que em geral me parece útil. Um primeiro aspecto é... não adianta, me parece, neste primeiro momento, simplesmente fazer uma postura de uma oposição ao discurso psiquiátrico reinante. Acho que é preciso algo de uma presença que ajude no sentido de um certo aplacamento da angústia. E é preciso também uma historicização desse sujeito, algo que vai ser a constituição de uma espécie de um relato que necessariamente ele vai ser tecido do imaginário do sujeito, mas no qual ele possa fazer uma inscrição dessas crises, desse sofrimento, ainda que seja totalmente imaginário, totalmente feito a partir de questões meramente à la carte, ele constrói para resolver os seus problemas daquele momento. Mas isto vai nos dar uma base significante em que uma temporalidade vai ser colocada nesse sujeito, e que a possibilidade de algo imaginário, veja bem, o que eu estou dizendo, me parece que passa num primeiro momento, pela possibilidade da constituição de um imaginário de que aquelas crises têm um sentido na história do sujeito.

Ora, vai ser essa promessa, essa expectativa de sentido, colocado ao mesmo tempo desta perturbação, quer dizer que ele não se reduz a sentido, que pode mobilizar no sujeito, ao mesmo tempo, uma questão do saber sobre o inconsciente, ou seja, uma instalação da situação analítica, é um início de um trabalho.

Num segundo momento ele vai precisar curar desse artifício, vamos precisar ajudar a curar desse enredo que nós o ajudamos a construir, mas ele é necessário para que essa situação analítica possa se instalar.

Vou ver outras questões aqui; têm algumas questões aqui:

Pergunta (SP): No Seminário XI Lacan fala em dosar a angústia com o paciente  que isso quer dizer?

Mário Eduardo - Eu acho que já está mais claro, a partir do que a gente está conversando aqui, mas já estava no seminário X, quando ele faz aquele gráfico lá que ele coloca lá da questão da dificuldade do momento, ele coloca a angústia tendo como vizinhas a passagem ao ato, acting out.

Se a gente perde a dose da angústia, a gente perde a possibilidade da instalação da situação analítica, seja por não ter angústia, ou seja, não tem nada que se impõe como real perturbando aquela ordem imaginária do eu no qual o sujeito tem se habituado a existir, ou seja, é necessário que algo o interpele, mas não a um ponto tão extremo que ele viva apenas como desespero.
Eu vou procurar aqui outras questões, só um minutinho.

Pergunta (SP): O sr. disse que uma vez descortinada a promessa de completude, o sujeito se depara com uma nova tarefa: sobreviver como sujeito desejante. Como Lacan propõe a resolução dessa tarefa? Isto só é feito através da análise?

Mário Eduardo - Olha, a Nádia faz uma questão super interessante, super difícil, ela diz assim: “que o senhor disse que uma vez descortinada essa promessa de completude, o sujeito se depara com uma nova tarefa: sobreviver como sujeito desejante. Como Lacan propõe a resolução dessa tarefa? Isto só é feito através da análise?

Lacan em algum momento diz assim: que esse momento do final da análise é só o ponto em que a verdadeira viagem começa, a verdadeira viagem começa a partir dali.

A gente pode dar este descortinar, este caráter de fachada do objeto e da fantasia, encarar até trágico; o sujeito se defronta com a noite escura, e a partir daí, ele responderá sozinho por algo que Lacan vai falar nos seus últimos seminários como a constituição de um novo amor, ou o estabelecimento daquilo que vai se chamar a sua identificação com o sintoma, é como é que eu vou me virar com aquilo que de qualquer maneira em mim não tem cura, é incurável como estrutura. Como é que eu vou me virar nesse mundo, que em última instância não tem garantia nenhuma, com as marcas que em mim não se apagarão. Isso é um, ou seja, é uma tarefa colocada no outro sujeito, e a partir daí, diz Lacan, a verdadeira viagem começa.

Então eu diria que nesse sentido a gente pode ver a análise não nessa dimensão trágica, mas num sentido que o próprio Freud já colocava, desde os estudos sobre a histeria, quando ele dizia assim: “quando um paciente me pergunta: para que que serve este tratamento, uma vez que o senhor mesmo diz que meu sofrimento vem da minha vida, e os fatos da minha vida o senhor não pode mudar”. Aí Freud responde: “olha você tem razão, o destino encontraria uma maneira melhor de organizar os fatos da sua vida, eu não posso com o meu tratamento catártico te prometer a felicidade; o que eu ofereço é algo muito mais modesto: ofereço transformar o teu sofrimento neurótico em miséria humana comum”.

Contudo, diz Freud, uma vez que você vai ter a tua vida emocional mais livre, você poderá com melhores condições e com mais força, poder, você mesmo se ocupar da gestão da sua existência, sem estar mais paralisado pelas inibições neuróticas. Eu vejo muito por aí como essa nova tarefa.

Pergunta (SP): Prof. Mário, como lidar com indivíduos com pânico e com histórico de adição de drogas (cocaína, etc.)

Mário Eduardo - Bom é freqüente que pacientes que começaram com pânico, acabem desenvolvendo dependência à droga, dependência ao álcool, ou dependências em geral, dependência ao lar, dependência ao companheiro ou a companheira, de fóbico, faz uma espécie de patê do conjunto do quadro.

Eu diria que são questões que se colocam, freqüentemente, como digamos, fatos clínicos, mas que eu diria que elas não permitem uma resposta geral.

Eu diria que tanto o surgimento da crise do pânico quanto esses comportamentos de adição são muito singulares, e podem em cada circunstância, ter inscrições diferentes. Não podemos ter certas situações de uma espécie de um desabamento.

No sujeito dessa vivência de legitimidade fálica, o que, do ponto de vista clínico, muitas vezes se traduz pela queda no alcoolismo, pelo isolamento social, e daí por diante. E que o pânico pode ter algum efeito deste tipo, mas várias outras constelações, então eu não daria nenhuma resposta geral para esta questão.

Bom, eu acho que agora encerraram-se as questões, vocês têm mais alguma coisa que valeria, que vocês achariam que poderia conversar?

Eu tenho uma questão da Sonia para ser respondida, eu acho, desculpa, eu vou voltar aqui. Eu tenho a impressão que a questão da Sonia já foi respondida, não sei se tem algum ponto que ainda ficou em aberto.

Aqui, o Angelino diz, uma curiosidade, e aqui, a Conexão Lacaniana diz que é a última, deixa eu ver aqui que é a última, deixa eu ver aqui. Bom, ele diz assim: “existe hoje em dia uma série de psicofármacos para desimplicar o sujeito de suas questões; existe algum para implicá-lo?”

Olha, Angelino, eu não colocaria assim os termos da questão; eu não diria que existem psicofármacos para desimplicar ou implicar. O que implica ou desimplica não é a ação farmacológica da droga; o que implica ou desimplica é a palavra do médico que vai junto com a droga. É isso que vai fazer essa construção significante do que representa para aquele sujeito ter naquele momento tal diagnóstico e tal tratamento.

Então, uma mesma droga, isso aí é a leitura que o Jacques Derrida faz lá da farmácia do Platão, do pharmacon do Platão, ele diz assim: “o pharmacon, ele é uma substância que ela pode ser remédio ou ela pode ser veneno; tudo vai depender da palavra do médico que acompanha a prescrição desta droga junto a um sujeito específico.

Então, de acordo com a inscrição subjetiva que essa palavra do médico propiciar, nós vamos ter uma implicação possível ou uma alienação ainda mais radical desse sujeito.

Pergunta (PR): “Eu acredito no cuidado do analista, ou seja, ele tem que saber se agüenta a angústia do paciente”.

Mário Eduardo
- Então, por que a questão da Ana Claudia, ela falava um pouco dessa sensibilidade própria do analista, eu acho que ela tem toda razão.

Em primeiro lugar, tem a psicanálise é uma disciplina clínica, ou seja, a gente se inclina da melhor maneira possível diante de fatos que naquele momento são únicos. Então tem esse aspecto; primeiro desse, dessa coisa do trabalho que a gente faz daquele momento da melhor maneira que a gente consegue.

Agora eu acho que tem este aspecto, agora eu estava dizendo é assim: que não é fácil para o clínico, para o analista, sustentar a angústia do outro. Eu diria que essa é uma grande questão. É até aonde a gente tolera escutar, até onde a gente tolera que aquele sujeito também avance no descortinar daquilo que se revela como queda do fantasma, ou como travessia do fantasma e descortinamento dessa dimensão de fachada da garantia.

Então, no fundo, não é um desafio para o analisante apenas, é um desafio para o analista. Essa, vai toda questão então da análise do analista e da sua possibilidade sustentar esse desejo do analista, ou seja, até que ponto a gente é capaz de suportar como mera diferença aquele processo que se dá no campo do outro que nos interpela na nossa posição de sujeito, e que às vezes para nós mesmos com uma tal radicalidade que o analista funciona como o elemento de resistência da análise; é o analista que coloca o pé no freio porque ele próprio não tolera as regiões que aquele sujeito está podendo descortinar para si mesmo.

Tem uma passagem do livro “Paixão segundo GH” de Clarice Lispector, em que a GH, personagem principal também se propõe a uma tarefa de ir ao fundo do real, e tem um momento em que ela fala para o leitor: ”eu só peço para você, que agüente o que eu tenho a dizer até o fim”. Eu acho que esse é o desafio.

Pergunta (PR): Você me entendeu, obrigada!

Pergunta (SP): mas é isso que diferencia o analista de um amigo ou parente?

Mário Eduardo - Exatamente, que a gente consegue supostamente, a gente consegue sair deste lugar deste outro próximo; sem também se identificar com o lugar de um grande Outro que não existe, ainda que esse lugar não seja solicitado num certo momento da análise pelo analisante.
A dificuldade é que esse sujeito só tolerará descobrir que não há outro de outro se nós próprios tolerarmos.

Pergunta (RJ): Miller afirma num livro sobre psicanálise e psicoterapia que o analista vai levar a análise até onde o paciente suporta com suas condições. No caso da angústia intensa esta avaliação deverá ser bem cuidadosa, não?

Mário Eduardo - No caso da angústia intensa, essa avaliação deverá ser bem cuidadosa. Ela deverá ser bem cuidadosa nestes dois parâmetros: até onde a angústia não vai se degenerar em desespero estéril, e até onde não é onde apenas o paciente suporta, mas até onde a gente suporta suportar a descoberta e a pesquisa que aquele sujeito está fazendo, aquela revelação, aquele sujeito está tendo de si mesmo. Eu diria que este é o principal fator limitante do avanço de uma análise.

Bom, eu então queria agradecer a todos vocês, eu queria agradecer muito, primeiro ao convite da Conexão Lacaniana, foi muito gentil, muito agradável o convite, não é?

E mandar também um abraço, um grande para o Luís Matsumoto no apoio técnico aí, porque ele pôde enfrentar os desafios de ensinar alguém que praticamente é analfabeto nessas tecnologias, né; a se virar relativamente bem aí com essa nova possibilidade de contato entre nós aí.

Então tá, gente, um grande abraço para vocês e muito obrigado, e um bom final de domingo para todos. Até mais. Eu vou passar a palavra de novo para a Conexão Lacaniana.


Conexão Lacaniana: Muito obrigada pela sua conferência professor, foi, como eu já escrevi, foi muito importante, principalmente a sua eloqüência, é maravilhosa. O professor retomou todos os temas que nós trabalhamos ao longo deste curso, praticamente todos, foi muito interessante que coincidentemente a gente tem podido rever tudo que foi trabalhado desde Freud. Tivemos dois módulos de Freud, depois entramos em Lacan, aí foi possível através da sua conferência retomarmos todos esses pontos trabalhados.

A conferência em si foi excelente, hoje coincidentemente é o nosso último dia de curso, e esse é um chat de encerramento, assim foi possível passar por todos pontos trabalhados fazer esse encerramento de um modo providencial. Obrigado em nome de toda Conexão.

Mário Eduardo - Eu é que agradeço, e desejo para todos agora aqui em que essa vai ser a última conferência deste ciclo, uma boas férias a todos, bom descanso, e depois boa retomada, que esse projeto continue indo a frente, criando essa nova via de contato, de transmissão da psicanálise. Um grande abraço para todos.

Conexão Lacaniana: Nossos agradecimentos sua conferência, foi muito importante para nós, pois foi importante para nós sua conferência pois pudemos retomar os temas trabalhados por nós ao longo deste curso. Obrigada dr. Mário. Prof. Dr. Marcio Peter agradece imensamente sua participação.

Mário Eduardo - Queria mandar um grande abraço para o Márcio Peter, dizer que para mim foi uma experiência muito interessante participar aqui deste chat, eu nunca tinha participado de algo semelhante, foi muito legal. Mandar um grande abraço para ele, eu sei que nós partilhamos de várias preocupações em torno destas questões aí consternindo relações da psicanálise com a psiquiatria, esse papel aí crescente, da indústria farmacêutica, da publicidade médica nessa questão toda, nossa preocupação aí com as questões da psicopatologia em geral, mandar para ele então um grande abraço, e felicitar pela iniciativa que eu achei muito interessante.

Núcleo Márcio Peter de Ensino - Conexão Lacaniana
Curso OnLine "O essencial para entender Lacan"
Conferência 29/06/08 | Moderação: Renata Reis | Assistência: Carla Audi

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